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Humanização da Medicina: o olhar de um especialista em Gastrenterologia: entre a fé e a ciência
Publicado em 05/09/2026 20:05 • Atualizado 05/09/2026 20:33
Opinião
Foto: IA

 

Por: Fernando Jorge Ramalho

 

A medicina contemporânea vive hoje uma tensão evidente entre os extraordinários avanços científicos e tecnológicos e o risco, cada vez maior, da perda da sua dimensão humana. Quando o doente é reduzido a um caso clínico ou a um corpo a ser tratado, deixa de ser reconhecido como aquilo que verdadeiramente é: uma pessoa integral, dotada de dignidade, história, sofrimento e espiritualidade.

 

A prática médica tem-se vindo a afastar progressivamente dessa dimensão, que considero, enquanto médico especialista em Gastrenterologia, absolutamente essencial.

 

O diálogo entre médico e doente limita-se, muitas vezes, à avaliação de sintomas e resultados laboratoriais, negligenciando aquilo que não se mede, nomeadamente a experiência do sofrimento, a fragilidade e a singularidade de quem procura ajuda. Este afastamento não surge de forma isolada, ou sem causa aparente. A crescente mercantilização da saúde, impulsionada por modelos organizativos centrados na produtividade, bem como um ensino médico ainda insuficientemente ajustado a uma visão humanista, têm contribuído para uma prática mais orientada para o consumo do que para o cuidado. Em muitos contextos, o doente corre o risco de se tornar um número, realidade particularmente visível nos serviços de urgência, onde a necessidade de dar resposta à doença se sobrepõe, frequentemente, ao cuidado da pessoa em sofrimento.

 

Neste contexto, estou convicto de que a fé cristã oferece um contributo singular ao propor a recuperação do cuidado como serviço, inspirado na compaixão de Cristo, médico das almas e dos corpos.

 

A tradição cristã é profundamente personalista, assente na convicção de que cada ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, a fragilidade humana, nomeadamente na doença, não diminui a dignidade inalienável da pessoa.

 

Nos Evangelhos, Jesus é apresentado como curador e pastor, que cuida integralmente do ser humano. Não trata apenas a doença: estabelece uma relação pessoal, escuta, aproxima-se, toca. A sua ação revela uma medicina que integra corpo, mente e espírito.

 

A tradição cristã oferece um contributo particularmente relevante para a compreensão da humanização da medicina, ao colocar a pessoa no centro do cuidado. No Evangelho de Mateus (25, 36), lê-se: “Estive doente e visitastes-me”. Esta passagem exprime, de forma particularmente clara, a identificação entre o cuidado prestado ao outro e a responsabilidade ética de quem cuida. Não se trata apenas de um apelo à assistência, mas de um reconhecimento da dignidade do doente, que deve ser visto não apenas como portador de doença, mas como uma pessoa merecedora de presença, atenção e respeito.

 

Para a fé cristã, a medicina não é apenas uma ciência, mas também uma vocação e, para muitos, um verdadeiro ministério de serviço à vida. O médico é chamado a ver, em cada doente, a presença de Cristo, concretizando essa visão numa prática assente na empatia, na escuta e no respeito pela dignidade humana.

 

O médico, ao escolher uma profissão que o aproxima de forma tão direta do seu semelhante, assume necessariamente como missão a procura do bem, concretizando-a através dos meios técnicos de que dispõe e da ciência que adquiriu ao longo da sua formação.

 

Essa procura do bem fundamenta-se, antes de mais, no encontro entre quem sofre e quem trata, um encontro que está na base da própria relação médico-doente.

 

Recordo, a este propósito, o meu sexto ano (1971-72) na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, quando, nas aulas de psiquiatria, o Professor Barahona Fernandes nos ensinava, e a mim em particular marcou, a importância desse encontro, do contacto direto entre o médico e o doente, como elemento essencial da prática clínica.

 

É nesse gesto simples e profundamente humano, quando o médico estende a mão ao doente que entra no seu consultório e o cumprimenta, que se inicia o diálogo, numa perspetiva de entendimento, assente desde logo na cordialidade e no respeito mútuo.

 

Humanizar a medicina significa, por isso, usar a ciência ao serviço da vida, sem que esta substitua o contacto humano. Significa recuperar o cuidado como encontro entre pessoas, onde se escuta ativamente, se dedica tempo ao doente e se reconhece a inseparabilidade entre corpo, mente e espírito.

 

A bioética assume, neste contexto, um papel fundamental, ao integrar o pensamento ético na prática médica. Trata-se de um ramo da ética que orienta as decisões clínicas, promovendo uma consciência moral permanente dos atos médicos e assegurando o respeito pela vida, pela dignidade humana e pela autonomia do doente. Nesta perspetiva, o doente nunca pode ser reduzido a um meio para fins, nomeadamente económicos.

 

O ensino médico e as faculdades de medicina têm, por isso, um papel decisivo.

Ao longo de mais de trinta anos como professor na Faculdade de Medicina, tive o privilégio de acompanhar alunos do quinto ano no ensino da clínica. Para além dos conhecimentos técnicos, procurei transmitir-lhes, sempre, algo que considero essencial: a importância da relação médico-doente.

 

A prática clínica exige método, rigor e capacidade de decisão. Mas exige também escuta, atenção e respeito pela pessoa que está diante de nós. A história clínica e a observação não são apenas etapas formais, são, muitas vezes, parte integrante do próprio processo terapêutico.

 

Recordava frequentemente aos meus alunos um episódio do início da minha prática, em 1972. Uma doente apresentou-se em consulta dizendo: “Doutor, tenho toda a parte esquerda do corpo fria e dormente.” A descrição pareceu-me, à primeira vista, algo exagerada. Ainda assim, considerei que desvalorizar aquela queixa seria um erro.

 

Optei por fazer uma história clínica completa, observá-la com cuidado e dar-lhe o tempo necessário. No final, prescrevi-lhe o que provavelmente teria indicado desde o início.

 

Quinze dias depois, regressou e disse-me: “Doutor, aquele comprimido foi uma maravilha. Tomei o primeiro e todas as queixas desapareceram”. Este episódio acompanhou-me ao longo dos anos como um exemplo simples, mas claro. Mais do que a medicação em si, o que fez a diferença foi a forma como a doente foi escutada e valorizada.

 

Numa medicina cada vez mais tecnológica, é importante não perder de vista este princípio fundamental: tratar a doença, sem esquecer a pessoa.

 

Ao longo da minha experiência como docente, pude ainda verificar que é durante a formação médica que se constroem não apenas competências técnicas, mas também valores, atitudes e a capacidade de relação com o doente. Não basta formar médicos tecnicamente competentes; é essencial desenvolver empatia, capacidade de comunicação, sensibilidade ética e respeito pela dignidade humana. A educação médica deve integrar práticas centradas no doente, preparando o futuro médico para tomar decisões responsáveis, respeitar a autonomia e reconhecer a dimensão psicológica, social e cultural da pessoa que tem ao seu cuidado.

 

Nos últimos anos, algumas faculdades de medicina passaram a incluir disciplinas de comunicação médico-doente, bioética e humanização, refletindo uma maior valorização do cuidado centrado na pessoa. Este avanço tem demonstrado impacto não apenas na relação clínica, mas também no bem-estar e na adesão terapêutica dos doentes. Apesar disso, persistem fragilidades: o currículo continua, em muitos casos, a ser predominantemente biomédico, com uma carga horária ainda limitada dedicada à ética e à relação humana.

 

A evolução da medicina trouxe consigo uma especialização crescente, necessária e valiosa, mas também o risco de fragmentação do cuidado. O especialista tende, muitas vezes, a centrar-se apenas no órgão da sua área, perdendo a visão global do doente. Esta é uma questão que me é particularmente próxima enquanto especialista. No entanto, considero essencial nunca perder de vista a pessoa como um todo. A fragmentação pode comprometer a relação médico-doente, deslocando o foco do cuidado da pessoa para o órgão doente, quando aquilo que está em causa é, muitas vezes, um sofrimento mais amplo, também de natureza psicológica e existencial.

 

Ser especialista é, antes de tudo, ser médico. E ser médico implica compreender o significado humano, científico e ético da profissão, mantendo sempre uma visão global e integradora.

 

Na minha prática clínica, ao longo de décadas, mesmo em contexto laico, foi possível manter valores que decorrem de uma visão humanista e cristã, como a empatia, o respeito pela dignidade da pessoa humana, a atenção à dimensão espiritual do doente e o respeito pela diversidade e liberdade religiosas.

 

Fiz o meu percurso no Hospital de Santa Maria, onde tive oportunidade de exercer funções clínicas como professor da Faculdade de Medicina e chefe de serviço de Gastrenterologia e Hepatologia. Tive a oportunidade de criar e dirigir a primeira Unidade de Hepatologia do nosso país.

 

Foi neste contexto que fui progressivamente tomando consciência da importância de uma medicina que não se limite ao diagnóstico e tratamento, mas que inclua a presença, a escuta e o acompanhamento. Procurei estabelecer condições de funcionamento que representassem uma verdadeira mais-valia para os doentes. Criei uma reunião semanal onde, em conjunto com a equipa multidisciplinar (médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar), discutíamos a melhor forma de organizar a Unidade, garantindo uma resposta adequada a quem procurava os nossos cuidados, sem nunca perder de vista a importância da relação médico-doente.

 

Um exemplo simples dessa preocupação era a forma como nos referíamos aos doentes: não eram identificados como “o doente da cama X”, mas sim pelo seu nome, reforçando o respeito e a dimensão humana do doente ao nosso cuidado.

 

O hospital humanizado é aquele que conjuga competência científica e capacidade técnica com uma organização eficiente e, sobretudo, com o respeito pela pessoa doente. A humanização depende da convergência de fatores administrativos, técnicos, científicos e sociais, refletindo a complexidade do cuidado em saúde.

 

A comunicação com o doente deve ser clara, verdadeira e adequada, exigindo não apenas conhecimento clínico, mas também sensibilidade psicológica e compreensão da pessoa no seu contexto físico, psíquico, cultural e social.

 

Os cuidados paliativos constituem uma das expressões mais claras da humanização da medicina. Perante doenças graves ou incuráveis, o objetivo deixa de ser curar e passa a ser cuidar, aliviando o sofrimento e promovendo a qualidade de vida. Estes cuidados centram-se na pessoa, procurando integrar dimensões físicas, psicológicas, sociais e espirituais.

 

A proximidade da morte desperta medo e insegurança em qualquer um de nós. Neste contexto, a espiritualidade pode desempenhar um papel fundamental na forma como o doente enfrenta essa fase da vida.

 

No século XXI, torna-se igualmente importante o contributo da fé cristã no diálogo com o pluralismo cultural e religioso. A ética médica deve respeitar a autonomia do doente e a diversidade de crenças. A fé pode ser uma fonte de motivação na prestação de cuidados, desde que integrada numa prática profissional assente no respeito, na ciência e na liberdade de consciência.

 

Humanizar a medicina é, em última análise, recentrar o essencial. Mesmo perante os avanços tecnológicos, como a telemedicina ou a inteligência artificial, a medicina continua a ser, acima de tudo, uma relação humana entre quem cuida e quem necessita de cuidado.

 

É neste equilíbrio entre ciência e humanidade que reside o verdadeiro sentido da prática médica.

 

 

 

Fernando Jorge Ramalho é uma figura maior da medicina portuguesa, reconhecido como pioneiro no desenvolvimento da hepatologia clínica e académica em Portugal. Médico Gastroenterologista e Hepatologista, Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, dedicou mais de quatro décadas ao Hospital de Santa Maria, onde criou, em 1988, a primeira consulta de hepatologia em Portugal e fundou, em 1992, a primeira Unidade de Hepatologia do país. Ao longo do seu percurso, afirmou-se não apenas pela excelência científica e académica, mas também por uma visão profundamente humanista da medicina, centrada na pessoa, na dignidade humana e na compaixão.

Continua a exercer  medicina em Consultório privado na Freguesia de Benfica, onde reside e frequenta a Paróquia de Nossa Senhora do Amparo

 

Assumindo-se como médico “por graça e fé”, entende-se a prática clínica como uma vocação de serviço, onde cuidar é expressão de amor ao próximo e testemunho concreto dos valores cristãos.

 

*Artigo publicado originalmente no jornal 'O Observador' e enviado pelo autor à Rádio Amparo.

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