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OPINIÃO - A cruz não é espetáculo, é comunicação
Por Nuno Rosário Fernandes
Publicado em 03/04/2026 14:36 • Atualizado 03/04/2026 17:59
Opinião
Foto: IA

Na Sexta-feira Santa, a Igreja detém-se diante da cruz. Não diante de um espetáculo, nem de uma encenação pensada para impressionar. Detém-se diante de um acontecimento que é duro, silencioso, quase escandaloso na sua sobriedade. A cruz não seduz, não entusiasma, não procura sequer o aplauso. E, no entanto, ela comunica como poucos acontecimentos na história humana.

 

Na cruz não há aparência, há revelação. Não há encenação, há entrega. Não há procura de impacto, há amor que é levado até ao fim.

 

A cruz mostra-nos que a verdadeira comunicação não consiste em chamar a atenção, mas em dar a vida. Não se mede pelo alcance imediato, mas pela verdade que transporta. Não vive do que é superficial, mas da profundidade de um amor que se deixa ver, mesmo quando não é atraente.

 

Talvez seja este o primeiro critério para pensar também a forma como a Igreja comunica, em qualquer tempo.

 

Porque a relação entre a fé e os meios de comunicação nunca foi simples. Desde o início, o anúncio do Evangelho teve de encontrar linguagens acessíveis, formas breves, palavras que pudessem circular e ser compreendidas. As cartas dos apóstolos, proclamadas nas comunidades, eram já uma forma de comunicação adaptada a um mundo em movimento. Mais tarde, a imprensa, a rádio, a televisão, suscitaram entusiasmo, mas também muitas reservas e perguntas. Cada época trouxe, então, novas possibilidades e novas inquietações.

 

O essencial, porém, manteve-se: como comunicar sem empobrecer a mensagem? Como tornar visível sem cair na aparência? Como anunciar sem reduzir?

 

Foi neste contexto que o Beato Tiago Alberione intuiu que os novos meios podiam tornar-se um verdadeiro púlpito. Num tempo em que muitos olhavam com desconfiança para a comunicação social, ele percebeu que não bastava guardar o Evangelho, mas era preciso fazê-lo chegar a todos. Por isso, apostou na imprensa, na edição, na difusão, não por gosto de novidade, mas por zelo apostólico. Não ignorou os riscos, mas também não se deixou paralisar por eles. Sabia que o problema não estava nos meios, mas na forma como são usados e no que se comunica através deles. E essa questão permanece atual.

 

Hoje, observamos e testemunhamos que grande parte da vida passa pelo digital. É aí que muitos se informam, se exprimem, procuram companhia, colocam perguntas e, tantas vezes, revelam fragilidades que não saberiam partilhar noutros espaços. Não é toda a vida, mas é uma parte real da vida. E, por isso, também aí a Igreja é chamada a estar. Não para fazer espetáculo. Não para competir por atenção. Mas para testemunhar.

 

Um conteúdo breve não substitui um caminho de fé. Uma publicação não cria, por si só, uma comunidade. Um vídeo não dispensa o encontro, a escuta, a proximidade concreta. Mas pode ser um início, uma porta ou um sinal que chega no momento certo.

 

Há quem não entre numa igreja, mas escute uma palavra através de um ecrã. Há quem esteja afastado e encontre aí um primeiro ponto de contacto. Há quem, no meio do ruído, reconheça uma voz diferente. Isso também conta. Isso também pode ser semente. O critério, porém, não muda.

 

Assim, se a comunicação nasce apenas da necessidade de aparecer, ela torna-se vazia, mas se nasce de uma vida real, de uma fé vivida, de uma comunidade que ama e serve, então torna-se verdadeira.

 

A cruz continua, então, a ser a medida. Ela lembra-nos que o essencial não precisa de ser vistoso para ser fecundo. Que aquilo que transforma a vida raramente se impõe pela aparência, e que a força do Evangelho não está na sua capacidade de impressionar, mas na sua capacidade de amar.

 

Mais ainda, a cruz lembra-nos, também, que o amor que ali se revela não pode ficar escondido. Foi contado, proclamado e transmitido ao longo dos séculos, não como espetáculo, mas como anúncio. Não para gerar a simples curiosidade, mas para abrir verdadeiros caminhos de vida.

 

E hoje ainda é assim. Em qualquer meio, seja na palavra dita, na presença vivida, ou até numa simples publicação, a Igreja é chamada a comunicar não aquilo que brilha mais, mas aquilo que é mais verdadeiro.

 

Por isso, a cruz não é espetáculo, é comunicação. E só quando a nossa forma de comunicar se aproxima desta lógica, de modo discreto, fiel, e com entrega, é que ela se torna realmente fecunda.

 

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